SimulacroRemix

Estou aqui porque quero escrever sobre o caos que é viver em paz. A escolha a ser feita é driblar ou enfrentar o meu pensar: “modus vivendi” particular. Ficciono uma realidade alternativa minha ao driblar. Machuco alma e coração ao enfrentar. O Pleno sabor agridoce me vem à boca no momento em que escolho driblar e enfrentar as teias do meu pensar. Concordo em discordar de mim vezes pontuais. Como agora. Tentei driblar. Apenas driblar. Mascarar uma verdade ou inverdade apenas para seguir um roteiro. Penso. Existo. Desisto. Refluo.

Viver em paz na minha concepção não é atingir o Nirvana, redução da violência urbana, comida, abrigo e educação qualificada para todos humanos ou humanoides. Não. Isso não é paz. Sim, é uma utopia do real em que merecemos viver. Morrer por isso, e não por petróleo e gás. Viver em paz é pensar sem rédeas em rede. Vozearia mental. Caos adquirido. Confuso a outrem. Confrangido pensar maldito e indecifrável. Decifro meu pensar a todo instante. Brilho e ofusco-me simultaneamente. Mente insana, corpo idem. Mas sem máscara nem eufemismo. Feminista intuição. Macho sem dúvida, mas de pensar híbrido. Penso como um homem. Amo a mulher ao ponto de adquirir sua intuição.

Descobri no parágrafo acima o porquê do meu escrever: Quero por a desordem híbrida do meu pensar em papel para um ou outro ler. Chegue mais perto. Critique, adore, ame e enjoe-se. Odeie minhas palavras. Leia – as. Saiba que apenas um ser neste mundo realmente importo em ter como um leitor assíduo . No momento ele é mais ouvinte do que leitor, mas graças ao destino, ele gosta das minhas palavras. Satura-se também. Mas Gosta. Gosto e quero ter você, nobre desconhecido(a) , como meu leitor ou ouvinte. Quem sabe até “Vidente”. Por enquanto fico com meu fiel Leitor-Ouvinte. Sem mascara, dribles ou coisa parecida desfraldo a verdade lisa e pura: Escrevo para posteridade. Para poucos. Para mim. De certa forma, Para que meu pequeno Ouvinte conheça um simulacro da verdade que me incendiou a vida e claro, tenha ciência dos personagens que passaram por ela. E um destes personagens é Ronald Leonardo, Meu Avô Paterno.

Manje um Bolero de Ravell... "Dolá dolá  do lado de cá" é o cacete !

Manje um Bolero de Ravell... "Dolá dolá do lado de cá" é o cacete !

Se não me engano, cerca de 3 horas atrás… Não… 4 horas? Mas como começou? Não lembro exatamente como ou o porquê, mas ele, Ronald Leonardo, apareceu mais uma vez em meus contos noturnos que ofereço ao pequeno “Leitor-Ouvinte” que realmente importo em ter, por todo sempre, principalmente quando não mais nossas coexistências forem possíveis em matéria. Quando minha fase etérea chegar, sei que ele guardará com carinho minhas loucas e inebriantes estórias e história.

Há quase oito anos este pequeno Leitor-Ouvinte é muito interessado em minhas palavras. Com elas tento ajudá-lo a reconhecer a si mesmo em minhas experiências: Mostro-lhe um simulacro da realidade em que um dia pode brotar-lhe aos olhos. Não penso na forma nem possuo cordas que amarram um escritor em pleno ofício. Pra ele sou uma espécie de audiolivro autobiográfico infanto juvenil, onde os fones de ouvido são plugados no vermelho músculo que reside em meu tórax, tal como os Tupi-Cavaibas , os Nambiquaras ,os Bororos, Guaranis e os Nuaruaque, onde a tradição é passada de geração a geração de forma oral. Tudo para meu garoto, camaradinha, amigão e maior amor do mundo: Lucas, meu filho, 8 anos em fevereiro de 2011. Quero muito que ele repasse nossas “aventuras” para as gerações futuras “Leobraguianas”.

Oito anos agora duram 8 horas? Impressionante a velocidade e ferocidade do tempo. Mais ainda é sua capacidade de diluir ou modificar fatos e sua amplitude de versões. O tempo é inimigo de quem o regra ou tenta ludibria-lo. É implacável. Maldito se apenas sobrevivido. Colossal tempo querido. Curto e oco quando doce. Longo e maciço quando amargo. Pleno quando agridoce: um mix de aventuras, desventuras e venturas: experiências de todos os sabores e saberes.

Quando o fim do tempo se aproxima, seja de um jogo do Flamengo, uma cirurgia cardíaca, o tempo das férias de verão, do sono ou do coito, sentimos uma excitação, inquietação absurda, na espera do gol salvador, da notícia do cirurgião, das próximas férias, do próximo ronco e do próximo gozo.
Contrariando o senso comum e músicas da época da ditadura, esperar é saber, mas só se o ineditismo for experimentado enquanto não acontece o que se quer. Explore sem preconceitos babacas o que for possível entre uma espera e outra. Não se afligir com o tempo é o combustível imprescindível para chegar ao fim sem se preocupar com o “meio”: Durante o processo, goze de tudo… Saboreie o trágico e o cômico … Faça sua hora valer… E repasse-o para seus filhos e netos, assim será eterno.

Maldita eternidade que não nos pertence em matéria. Isso preocupa muito meu filho. Preciso ser imortal ao menos nos próximos 30 anos. A morte dos pais é o cagacinho mais comum entre as crianças. Entristecem com força só em pensar na brevidade da vida. Um grande exemplo é a minha infância, onde o meu cagaço-profundo-mor era perder meus pais e avôs. Outro exemplo é meu filho, que ao escutar estórias sobre Ronald Leonardo, meu avô materno, fica amargurado, angustiado e entristecido. Por tê-lo perdido sem ter um convívio direto. Ele associa minha perda com a dele, mesmo eu ainda aqui, vivo em carne. Ele adora ouvir as estórias que conto sobre meu Coroa-Master-Boladasso-Vô Rona, mas pensa que um dia não estarei mais aqui ao lado dele, exatamente como Rona não está mais aqui ao nosso. Será que não mais está? Penso contrário. Está sim, em minha memória e nas que repasso ao Lucas, que sente saudade de uma pessoa que ele praticamente não conviveu. Disse a ele que as estórias que conto é uma forma dele não se “esquecer” do Bisa.

No meio de “lembranças”, meu filho me manda um: “Papai, Jamais vou esquecer você….” demonstrando todo o medo latente e amor por um Pai-Irmão-Doidão , tanto quanto pelo Bisa .
Sem pensar muito falei pra ele : “é uma mistura de tristeza e alegria né filho… isso é saudade … do que ainda estar por vir e do que já passou” . O tal doce e amargo. Pleno.

Contei mais algumas coisas sobre meu avô e como até o arroto dele era engraçado, que ele adorava tremoços e pão com queijo minas e orégano no forno e até da origem do apelido dele no futebol Ser Boiada. Por ter um puta chute de esquerda, Rona era um dos primeiros a ser escolhidos pela rapaziada. Ele jogava bola em um campinho atrás da linha do trem, recheados de carga, entre elas cabeças de gado. Certo dia ele deu um chute bizarro, a bola subiu muito, bateu no trem que passava, e a porra dos bois pularam do trem pro campo. Foi uma correria só, e os amigos o apelidaram de Boiada, culpando-o pela invasão insólita, já que “pseudamente” foi seu chute forte que provocou a fúria nos animais…

Empolguei-me e comecei a lembrar de várias bizarrices do Rona, de Algumas piadas e a clássica maneira de pintar um carro em movimento: atropelar um entregador de uma loja de tintas e sua bicicleta, ver as latas e o cara voando por cima do fuscão branco, colorindo-os a força, mas sem querer. O véio da barba branca me contou sua história sempre observando minha idade. Com o passar do tempo foi me nutrindo de cenas.

Na infância a onda máxima era a forma como nos cumprimentávamos: “Meu vovô…Meu Netinho” Sempre acompanhado de um “Nunca se esqueça, o Vô te ama”, ou apenas ligar pra minha casa e perguntar : Já te disse Hoje? O quê Vô? Que eu te amo….

O sono do Lucas foi aumentando, mesmo com a curiosidade sobre o Bisa que não pode conviver a ponto de lembrar, mas resolvi falar que também não conheci meu bisa João, Pai do Rona e ouvir :

“Pai, tá esquecendo o porquê que você está aqui ? (Uma historinha e carinho pra ele dormir mais tranquilo….)
“Tá certo Lucão… Vamos dormir…”

Minutos depois ele manda:

-Não gosto de falar destas coisas porque da vontade de chorar… Eu lembrei e até escorreu uma lágrima…

Lucas estava imaginando não ter convivido comigo ao ponto de não lembrar? Saudade do Bisavô? Não importava mais. Resolvi ajudar meu garoto dormir ao som de “Comer tatu é bom.. que pena que da dor nas costaaaaas….”

Enquanto Lucas dormia, minha mente foi me presenteando com lembranças. Rona riu do meu primeiro porre… E cuidou da minha ressaca… Brincava de forte apache dentro de uma cabaninha ridiculamente pequena, onde mal cabia eu. Omitia que torcia pelo Vasco, Preferia dizer que era Bonsucesso só pra me agradar, além de “comemorar” gol do Mengo da mesma forma que comemorava um gol do adversário do Mengo, na mesma partida. Ele me ensinou algumas manhas pra chegar nas gatinhas e obter mais sucesso. Achava o funk uma merda e me zoava, dizendo que eu ouvia uma bosta de música que se resumia em: “dolá do dolá do dodododo dolá dolado de cá…. não tem caô… da Zona Sul a Zona Norte…”

Foda foi lembrar a última vez em que eu disse ao Rona, já na UTI em seus últimos dias de vida “Meu vovô”… E ele com muito esforço, mas um esforço absurdo mesmo, lágrimas nos olhos perdidos e alterados devido à medicação, mas com um sorriso limpo e debochado responder “Meu netinho”… Foi a última frase que ouvi dele em vida… E o mais punk disso tudo é que ele ficou esse tempo segurando a minha mão e se despedindo dela, assim como eu da dele… Afastei-me e reencontrei minha família. Acho que todos sabiam que esta era nossa despedida.

Comecei a lembrar de coisas que ele me contava quando eu já era adolescente: “meu filho, se colocar uma xerequinha do lado da outra que o vô já comeu ia pra Sampa e voltava pelo Rio-Santos…”… “Cara, quando eu era garoto a porra ia longe, como daqui até a parede… já adulto caia na metade do caminho, um pouco mais velho caia logo no chão… um ano atrás só escorria pela caceta. Agora meu filho, quando levanta, no máximo pinga e não passa da glande…”.

Hoje entendo o que ele quis dizer com a saga da “Porra”: Aproveite a sua juventude pra não sentir saudade quando ficar velho, e não tô falando só em sacanagem rafa e sim de tudo, tudo…. Cuide bem dos seus joelhos e pare de comer tanta porcaria e ouvir tanto funk…. Manje um Bolero de Ravell, Yanni em acrópolis, um Tim Maia, Sinatra…

Provavelmente eu hoje diria a ele: que merda ser cardíaco em dias de pílula azul hein, coroa … Na boa vô… para cara, você curtia o Ray Coniff, aquele cara que parecia o Zacarias ancião com saxofone na mão . E sem dúvida ele responderia… Ah rafa, Num fode, eu tomo um Isordil junto…. E Ray Coniff é muito melhor que dolá do dolá do dodododo dolá dolado de cá …..

Nunca vou te esquecer Rona …. Jamais… E vou repassar ao Lucas todas a nossa história e suas estórias … Do futebol, do apelido, do feijão tropeiro e do cozido, das brigas de navalha e camisa de seda, do revolver na pochete, do comer a enfermeira pós-enfarte ainda no hospital, engravida-la e só “me dizer” 14 anos depois, de viver heroicamente alguns anos com apenas 1/3 do Coração e um pulmão funcionando, entre outras coisas mais.

Vou esperar o tempo chegar. Aos poucos inundo o Lucas com minhas lembranças. Sei que apenas será um Simulacro para ele do Original que foi pra mim, mas acima de todas as coisas, suas experiências aliadas as minhas moldará o Simulacro de vida que pretendo repassar ao Lucas: realidade que um dia pode brotar-lhe aos olhos… Ou não.

Enfim descobri o porquê de escrever: Ficcionar o real. Concretizar imagens abstratas. Satisfazer-me ao desamanhar meu pensar. Viver anarquicamente em paz.

Eu já te disse Hoje? Nunca se esqueça!

André Rieu VS Rap do Surfista


 

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