Charlie Spencer Chaplin

Grande Chaplin

Grande Chaplin

Quando eu era garoto não suportava ver filmes em preto e branco ou assistir discursos que me faziam pensar. Desconhecia o trabalho e críticas de Chaplin

Na faculdade, uma professora indicou o filme o “Grande ditador” para vermos, mas não ví.

O filme foi lançado em 15 de outubro de 1940 e satiriza o nazismo, o fascismo e seus maiores propagadores, Adolf Hitler e Benito Mussolini. Foi o primeiro filme falado de Chaplin.

Já ví e reví muitas vezes ao longo dos últimos meses a cena derradeira do filme, que por ventura achei no youtube.

Que texto fantástico. A cena em questão é “o último discurso” .

Separei 3 textos de Chaplin . De imediato me identifiquei com eles.

“Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida.”

“Aos que me podem ouvir eu digo: `Não desespereis!’ A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura dos homens que temem o avanço humano…”

” A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios… Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento de sua vida… Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”.

Chaplin – palhaço prodígio
por Pascal Marchetti-Leca

Projetado às alturas ao personificar o romântico vagabundo, o genial autor, ator e diretor encarnou o eterno combate de Davi contra o gigante Golias.

“Quatro dias antes de Hitler.”
Com essa frase, Charles Spencer Chaplin definiu a data de seu nascimento, um mistério para os pesquisadores e biógrafos. Sem certidão oficial, o criador de Carlitos supostamente veio ao mundo em 16 de abril de 1889, no coração de East Street, bairro pobre de Londres.

Seus pais, Charles (1863-1901) e Hannah Harriet Hill (1865-1928), tinham preocupações mais importantes que regularizar registros civis ou paroquiais. A vida era difícil para os dois artistas, ainda que Charles obtivesse algum sucesso com cançonetas.

Atriz frustrada, Hannah percorria teatros de segunda classe em papéis secundários. Sob o pseudônimo de Lily Harley, lamentava suas ambições não realizadas, enquanto os cachês do marido eram tragados pelo álcool.

Na lembrança de Chaplin, sua mãe aparece não apenas como uma comediante talentosa, mas “uma das maiores artistas de pantomima já vistas”. Ele lhe atribui a iniciação na arte de interpretar: “Ela sentava-se durante horas diante da janela para observar as pessoas e demonstrava o que via com os olhos e a expressão facial. Distribuía um fogo cruzado de comentários. Foi ao vê-la e escutá-la que aprendi a expressar minhas emoções com as mãos e o rosto!”.

Em pouco tempo, o casal separou-se. Encantadora e leviana, Hannah encontrou consolo nos braços de outro astro, o impetuoso Leo Dryden, a quem deu um filho, Wheeler (1892).

O idílio era fogo de palha e logo Dryden se afastou de sua coquete de olhos azuis, reaparecendo apenas para raptar o bebê. Mais uma vez, ela estava abandonada, com seus magros rendimentos e duas crianças a tiracolo: Charles Spencer e o filho mais velho, Sidney Hawkes, nascido de uma união com um bookmaker.

As dificuldades para sobreviver não tardaram. Com contratos escassos, Hannah dedicou-se a trabalhos de costura, que, no entanto, não cobriam as necessidades da família. Pouco a pouco, os Chaplin afundavam na miséria.

A carreira de Lily Harley chegou ao fim em 1894, durante uma apresentação em um teatro miserável de Aldershot, a 55 quilômetros de Londres. Já doente e angustiada, a atriz viu sua voz falhar no palco e correu para os bastidores.

Sem outro número para substituir aquele, o diretor do teatro empurrou o menino Charlie, então com 5 anos, para o palco. Extrovertido, ele começou a cantar uma melodia em voga, Jack Jones, e improvisou passos de dança, conduzindo com naturalidade a paródia.

“Tudo estava muito confuso, não entendia bem o que acontecia! Dirigi-me ao público, dancei e fiz várias imitações. Fiquei surpreso ao ver o efeito que isso teve sobre a platéia”, lembra o cineasta em História de minha vida, sua autobiografia. Uma chuva de moedas caiu no palco e, quando Hannah apareceu para ajudar o filho a se despedir do público, recebeu uma torrente de aplausos. Naquela noite, Charlie recebeu seu batismo de fogo e sua mãe viu uma cortina de chumbo descer sobre seu talento.

O equilíbrio mental de Hannah, debilitado desde o seqüestro de seu filho caçula, foi se alterando cada vez mais. Em 1896, instalou-se com a família em um abrigo onde, segundo o costume, mães e filhos eram alojados em pavilhões distintos. “Que lembrança exata eu guardo do primeiro dia de visita, do choque que foi vê-la entrar vestida com as roupas de hospício! Em uma semana, ela tinha envelhecido e emagrecido, mas seu rosto se iluminou quando nos viu. Sidney e eu explodimos em soluços, o que a fez chorar.

Controlados, nos sentamos em um banco de madeira, as mãos sobre os joelhos. Minha mãe, dando tapinhas afetuosos, rindo de nossas cabeças raspadas e acariciando-as com um gesto consolador, prometeu-nos que logo estaríamos juntos de novo”, relatou o artista. Do asilo de pobres, os irmãos Chaplin foram para a Poor Law School de Hanwel, um orfanato na periferia de Londres.

Em 24 de dezembro de 1898, Charlie subiu ao palco pela segunda vez, no Teatro Real de Manchester. William Jackson, diretor de Os oito rapazes de Lancashire, aceitou o ator-mirim após uma recomendação de Charles, seu pai. Aos 9 anos, enfrentou a platéia como um profissional. Entusiasmado, viu no teatro o melhor caminho para lutar contra a miséria e jurou nunca se desviar dele.

Serviço de entregador
No entanto, no início de 1901 ele deixou o grupo para fazer pequenos serviços como entregador, mensageiro e comerciante, sem perder de vista o objetivo de tornar-se comediante.

Encorajado por Sidney, que, após um início de carreira no mar como ajudante de bordo decidiu ser músico, Charlie ousou bater à porta da Blackmore, a agência mais importante da rua Strand. O dândi esfarrapado foi imediatamente contratado para encarnar o personagem do mensageiro Billy em Sherlock Holmes, de William E. Gillette.

Os elogios da imprensa facilitaram os convites para papéis posteriores em espetáculos como Repairs e Casey’s Count Circus, em que atou até 1907. No ano seguinte, seus projetos tomaram um rumo decisivo. Estrela do Silent Comedians, de Fred Karno, Sydney usou sua influência para empregar o irmão.

No início reticente, o papa dos musicais achou o rapaz pequeno e emburrado, com um jeito tímido demais para chegar a algum lugar. Mas acabou amolecendo e lhe ofereceu um papel no esquete cômico Partida de futebol, encenado no Teatro Coliseum. “Entrei de costas para o público e tinha um ar impecável: jaqueta, chapéu, bengala e polainas, o típico farsante eduardino. Depois me virei, mostrando meu nariz vermelho”, contou Chaplin. “Levantei os ombros em um gesto melodramático, estalei os dedos e girei para atravessar o palco na diagonal, tropeçando na passagem em um haltere”, recordou ainda.

O público adorou a cena e, em 48 horas, Karno lhe ofereceu um contrato. Selado o acordo, o nome de Charlie passou a brilhar no cartaz da peça. No outono de 1910, partiu entusiasmado com toda a trupe para conquistar o público americano.

Os Estados Unidos e a acolhida que recebeu não o decepcionaram. O retorno à Europa lhe pareceu mais pesado. “Adoro a Inglaterra, mas era impossível viver ali. Pelos meus antecedentes, eu tinha a dolorosa impressão de recair em uma deprimente banalidade”, confessou em sua autobiografia.

Atravessou o oceano Atlântico uma segunda vez para uma outra turnê. Seria, na verdade, o percurso para uma nova vida. Por meio de Mack Sennett, a Keystone Film Company imediatamente o seduziu. Ao fim de suas obrigações com a trupe inglesa, em setembro de 1913, Charlie trocou os palcos pelas telas.

A partir de dezembro, entrou para os estúdios de Edendale, no subúrbio de Los Angeles e, em 2 de fevereiro de 1914, apareceu pela primeira vez nas telas em Para ganhar a vida, de Henry Lehrman.

Adaptou-se com dificuldade à rigidez do diretor, a quem considerava pretensioso. Pouco seduzido pelo humor raso e mecânico do roteiro, ele procurou interiorizar o efeito cômico com detalhes que, na interpretação, sobrepuseram o sutil ao grosseiro. “No estilo do estúdio, bastava esbarrar em uma árvore para ser gozado. Com Chaplin, não é a batida que torna a cena engraçada, mas o fato de que ele tira o chapéu para se desculpar”, resume seu biógrafo, David Robinson.

Recém-chegado à companhia, tinha a pretensão de inovar. Foi em A estranha aventura de Mabel, de 9 de fevereiro de 1914, que inaugurou a silhueta e os trajes de um príncipe-mendigo que se tornaria lenda. Sustentou-se por muito tempo que o comediante tinha vestido o personagem pela primeira vez em Carlitos se diverte, mas esse filme precedeu o outro apenas em sua data de estréia nas salas, não na filmagem.

Chaplin revelou, mais tarde, o momento da criação: “No caminho do camarim, disse para mim mesmo que iria colocar uma calça extremamente larga, um paletó apertado, um chapéu-coco e sapatos enormes. Acrescentei um bigodinho que me daria alguns anos a mais. Não tinha a menor idéia do personagem que ia representar, mas, desde o instante em que me vesti, as roupas e a maquiagem me fizeram sentir quem ele era. Quando entrei em cena, estava totalmente criado”.

No decorrer das 35 filmagens de 1914, o personagem Carlitos se compôs e dobrou a profundidade psicológica de forma tão evidente que Mark Sennett deu permissão a Chaplin para dirigir seus filmes. Ele conheceu uma ascensão fulgurante. Associado a diferentes produtores, não hesitou em recolocar o romântico palhaço em cena dezenas de vezes.

Seguiram-se Carlitos boxeador (1915), O vagabundo (1915), Carlitos guarda-noturno (1916), O imigrante (1916) e, principalmente, Vida de cachorro (1918) e O garoto (1921), obra-prima que inspirou “sorrisos e lágrimas”, – como a abertura do filme propunha – inclusive em Sigmund Freud.

Produtor detalhista, não cessou a busca de uma interpretação entre o clown e a pantomima, a leveza acrobática e a eloqüência facial. Sem jamais dar as costas à comédia, insuflava delicadamente em sua obra uma dimensão poética, satírica ou trágica que transformou o estilo do cinema.

Justiceiro sem arma
Carlitos jogava moedinhas de humanidade, furtadas aqui e ali, nas fontes de miséria. Justiceiro sem arma, conquistador sem sorte, poeta sem voz. E como os personagens influenciam sempre seus intérpretes, em 17 de abril de 1919 Chaplin associou-se aos atores Mary Pickford e Douglas Faibanks e ao diretor D. W. Griffith para reagir contra o monopólio do sistema de distribuição de filmes.

Juntos, fundaram a United Artists Film Corporation. A recepção discreta de A opinião pública (1923), primeiro filme do artista na companhia, foi compensada com o sucesso de A corrida do ouro (1925), cuja valsa dos pãezinhos é uma cena antológica, ou de O circo (1928), que prefere ignorar totalmente a revolução do cinema falado. Sobre esse ponto, o diretor resume que “acrescentar palavras a um dos filmes corresponderia a pintar uma estátua”.

Ele ofereceu apenas duas concessões a essa inovação: os efeitos sonoros e o acompanhamento musical em Luzes da cidade (1931) e Tempos modernos (1936). O ilustre vagabundo nunca disse uma palavra, com exceção do discurso ininteligível improvisado na cena final de Tempos modernos, em que se despede da tela de braços dados com Paulette Goddard.

Depois deles, em filmes falados, vieram a ironia trágica de O grande ditador (1940), os assassinatos de um Monsieur Verdoux (1947) e a comédia dramática de Luzes da ribalta (1952), que reuniu dois gigantes do cinema mudo, Buster Keaton e Charlie Chaplin. A estréia foi em 23 de outubro de 1952, em Londres, cidade bem mais calorosa que as americanas, tomadas por um macartismo virulento (ver quadro acima). De volta à Europa, escolheu a Suíça para morar e, em 1977, recebeu da rainha Elizabeth II o título de sir (cavalheiro). No mesmo ano, em 25 de dezembro, o ídolo do cinema faleceu no pequeno castelo de Ban. A criança miserável que estreou nos palcos com apenas 5 anos deixou o dia de Natal um pouco mais triste e seus fãs, órfãos, como ele.

Grandes paixões e inconstância amorosa

Durante muito tempo, Charlie Chaplin buscou no olhar das mulheres a chama que animava uma dançarina do Streatham Empire, Hetty Kelly, por quem se apaixonou muito jovem e não foi correspondido. Já nos estúdios americanos, encantou-se por uma secretária e a colocou diante das câmaras.

Durante anos, a bela Edna Purviance foi sua conselheira e companheira. No início de 1918, preferiu a beleza evanescente de uma atriz de 16 anos, Mildred Harris que, em muitos aspectos, lembrava-lhe Hetty. Chaplin a esposou em 23 de setembro de 1918, no fim de um dia de trabalho. Diz a lenda que Tom Harrington, seu assistente, subiu em uma plataforma de filmagem para lhe dizer no ouvido: “Não esqueça que você tem um compromisso às oito horas!”. Era a cerimônia.

Em 7 de junho de 1919 tiveram um bebê, que viveu somente três dias. Em novembro do ano seguinte, os jornais anunciaram seu divórcio de forma sensacionalista. O cineasta não foi poupado de boatos, principalmente sobre uma ligação com uma comediante polonesa, Pola Negri. Mas a filmagem de A corrida do ouro abriu outras perspectivas ao amante inconstante.

Rebatizada Lita Grey, a atriz Lillita MacMurray anunciou, após oito meses de set, que esperava um filho de seu diretor. Novamente envolvido na incerteza de um casamento precipitado, Chaplin foi pai de Charles Spencer em 5 de maio de 1925 e de Sidney Earle em 30 de março de 1926.

Fugindo das crises de ciúme de Lita, caiu nos braços da cintilante Louise Brooks. Lita pediu o divórcio em uma escandalosa batalha judicial, misturando sentimentos confusos e compensações materiais. Gratificada por uma das indenizações mais colossais da história dos Estados Unidos, ela se reconciliou com sua dignidade ultrajada.

Em julho de 1932, Charlie ficou imobilizado diante do charme de Paulette Lévy, também conhecida como Paulette Goddard. Após o lançamento de Tempos modernos, desapareceu durante cinco meses com a loira misteriosa. Retornando aos Estados Unidos, casou-se com a atriz.

Em 1943, conheceu Oona, filha do dramaturgo Eugene O’Neil. Ela tinha 17 anos, ele, 54. Dessa vez, soube que não cometeria um engano. “Tenho a sorte de ser o marido de uma mulher maravilhosa. Quando ela caminha na minha frente, com uma dignidade simples e seus cabelos negros puxados para trás, uma onda de admiração me invade. Ao pensar em tudo que ela representa, fico com um nó na garganta,” escreveu, apaixonado, em sua autobiografia. Da sólida união, que durou mais de 30 anos, nasceram Geraldine, Michael, Josephine, Victoria, Eugene, Jane, Annette e Christopher.

O exemplo do artista engajado
Desde 1922, o Bureau of Investigation –futuro FBI – avaliava o comediante britânico que, apesar da consagração nos Estados Unidos, desprezou a nacionalidade americana. O que achavam desse cineasta, que projetou nas telas a figura de um infeliz desarticulado, símbolo da individualidade triunfante contra a adversidade, a injustiça e os padrões desumanizados? Um louco? Um perverso? Pior. Um agitador pago pelos comunistas.

As provas, os investigadores se empenharam em arranjar, com uma fúria cada vez maior na medida em que os filmes de Chaplin se politizavam. Em 1940, enquanto os Estados Unidos entravam em um isolacionismo desconcertante à espera dos acontecimentos, Chaplin elaborava um panfleto anti-Hitler, O grande ditador, que o então presidente Franklin Roosevelt viu com olhos de reprovação. E quando pediram que se explicasse, retorquiu: “Fiz esse filme para me vingar daquele que me roubou o bigode!”, já que alguns sustentavam que Adolf Hitler teria Carlitos como modelo de popularidade.

Como se não bastasse, depois da vitória russa em Stalingrado, Chaplin ousou tomar a palavra no Carnegie Hall, para pronunciar-se a favor de um segundo front. Começou seu discurso com a saudação “camaradas”.
A perseguição agravou-se a ponto de, em 17 de setembro de 1952, ele embarcar para o velho continente.

Em dois dias, seu visto de retorno foi anulado por uma lei que regulamentou o ingresso em território nacional, evocando a “moral”, a “saúde pública” e o combate à “loucura” e à “propaganda comunista”. O artista imediatamente respondeu: “Sou um internacionalista e não mudarei de nacionalidade!”. Chaplin só atravessou novamente o oceano em 1972, para receber o Oscar especial. Nesse meio-tempo, em plena Guerra Fria, apontou uma pistola para o coração da América ao filmar Um rei em Nova York (1957), projetado lá duas décadas depois.

Fonte : http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/chaplin-_palhaco_prodigio_8.html

Charlot
Por José Saramago

Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez.

Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos.

Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico.

Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula.

Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo.

O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram.

Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

Fonte : http://caderno.josesaramago.org/2009/05/18/charl

Responses

  1. O meu comentário(aanterior) foi muito infeliz,(não publicá-lo) torná-lo sem efeito me devolverá o meu estado de espírito que tem o perfil da paz. Contudo, não posso negar que como grande admirador de Charles Chaplin, admito
    deverá ser sempre julgado pela grandeza do gênio que foi e pela grandeza de suas obras.


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