Viver Com Estrangeiros

Viver Com Estrangeiros :
Por Zygmunt Bauman

Grande Bauman

O Pensador Pós-Moderno

Senhoras e senhores,

Envergonho-me um pouco de mim mesmo, de minha profissão. Sou alguém que fala a respeito de coisas, e agora estou diante de pessoas que fazem coisas de verdade, fazem com que elas aconteçam. Portanto, tentarei ser breve para não lhes roubar muito tempo, mesmo porque não seria possível falar de modo exaustivo sobre o tema que nos preocupa: ver, reconhecer e resolver os problemas da convivência.

Viver numa cidade significa viver junto – junto com estrangeiros. Jamais deixaremos de ser estrangeiros: permaneceremos assim, e não interessados em interagir, mas, justamente porque somos vizinhos uns dos outros, destinados a nos enriquecer reciprocamente.

Senhoras e senhores, gostaria de falar de um paradoxo absolutamente relevante nos nossos dias, um paradoxo – volto a sublinhar – lógico, e não psicológico. Ele não é válido do ponto de vista psicológico, mas certamente o é do ponto de vista lógico. Trata-se do seguinte: quanto mais o espaço e a distância se reduzem, maior é a importância que sua gente lhe atribui; quanto mais é depreciado o espaço, menos protetora é a distância, e mais obsessivamente as pessoas traçam e deslocam fronteiras. É sobretudo nas cidades que se observa essa furiosa atividade de traçar e deslocar fronteiras entre as pessoas.

Fredrik Barth, o grande antropólogo norueguês contemporâneo, destacou que ao contrário da equivocada opinião comum – as fronteiras não são traçadas com o objetivo de separar diferenças. Ao contrário, justamente porque se demarcam fronteiras é que, de repente, as diferenças emergem, que as percebemos e nos tornamos conscientes delas. Melhor dizendo, vamos em busca de diferenças justamente para legitimar as fronteiras.

Pois bem, senhoras e senhores, olhem bem ao redor – olhem à direita, à esquerda, para trás e para a frente -, e verão outros indivíduos, sentados como os senhores e as senhoras. Desafio-os a encontrar alguém que seja exatamente igual a cada um de vocês. Somos feitos apenas de diferenças, todos nós; existem milhares de homens e mulheres no planeta, mas cada um deles é diverso dos outros. Não existem indivíduos totalmente idênticos, isso é impossível. Existimos porque somos diferentes, porque consistimos em diferenças. No entanto, algumas delas nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente, de sentir interesse pelos outros, preocupação com os outros, vontade de ajudar os outros. E, não importam quais sejam essas diferenças, o que as determina é a natureza das fronteiras que traçamos. Cada fronteira cria suas diferenças, que são fundamentadas e relevantes.

Por isso, se queremos compreender as nossas diferenças e as dificuldades que criam, é preciso formular novas questões. Antes de tudo, por que essa obsessão em demarcar fronteiras? A resposta é que, hoje, essa obsessão deriva do desejo, consciente ou não, de recortar para nós mesmos um lugarzinho suficientemente confortável, acolhedor, seguro, num mundo que se mostra selvagem, imprevisível, ameaçador; de resistir à corrente, buscando proteção contra forças externas que parecem invencíveis e que não podemos controlar, nem deter, e menos ainda impedir que cheguem perto de nossas casas, de nossas ruas. Seja qual for a natureza dessas forças, todos as conhecemos pelo nome – esclarecedor, mas desviante – de globalização, ou (como preferia um amigo meu, Alberto Melucci) “planetarização”.

Hoje, neste planeta, todos dependemos uns dos outros. No entanto, ninguém assume a responsabilidade, ninguém detém o controle do que chamamos “espaço global”. Quando se pensa nesse espaço, o que nos vem à mente é algo semelhante a um faroeste hollywoodiano, a um oeste selvagem em que as pessoas se comportam de maneira inesperada, e onde, na verdade, os vencedores são os que escapam primeiro do campo de batalha, e não os que nele permanecem. É um espaço selvagem, e os milaneses – com os meios de que dispõem – certamente não poderiam se opor ao espaço global, que está fora de seu controle.

Permitam-me organizar um pouco as coisas. As diferenças que se tornam significativas e importantes em decorrência da natureza da fronteira, e as intenções que estão por trás dessa fronteira, são diferenças atribuídas a pessoas que demonstram a indecente tendência a ultrapassar as fronteiras e aparecer de surpresa em locais para os quais não foram convidados; um tipo de gente do qual muitos de vocês se defenderiam com circuitos fechados detelevisão, se mais não fosse, para ver quem está passando na rua.

Em meu país, a Inglaterra, existem agências de vigilância. Sabemos que osvigilantes do bairro estão de serviço durante certo número de horas por dia e que controlam as ruas nas quais os estrangeiros costumam passar. Ora, os estrangeiros que não são do lugar tornam-se os mais importantes portadores daquele tipo de diferença que devemos evitar. Mas que espécie de estrangeiros são eles?

Para explicar seu ambiente e sua origem, devemos recordar, antes de mais nada, que as cidades, nas quais vive atualmente mais da metade do gênero humano, são de certa maneira os depósitos onde se descarregam os problemas criados e não resolvidos no espaço global. São depósitos sob muitos aspectos.

Existe, por exemplo, o fenômeno global de poluição do ar e da água, e a administração municipal de qualquer cidade deve suportar suas conseqüências, deve lutar apenas com os recursos locais para limpar as águas, purificar o ar, conter as marés. O hospital do bairro onde vocês moram pode estar em crise, e essa crise reflete tais problemas, as preocupações financeiras; reflete o desconhecido e remoto conflito em curso entre os colossos farmacêuticos, que têm se batido pelos chamados « direitos de propriedade intelectual“, que colocam no mercado determinados fármacos e tratam logo de aumentar os preços, de tal modo que o seu hospital não consegue mais cuidar dos pacientes.

Também o terrorismo global vem desse oeste selvagem, do incontrolável espaço global. Mas, no fim, foram os bombeiros locais que enfrentaram os efeitos do ato terrorista do 11 de Setembro em Nova York; os policiais e os bombeiros de Madri é que foram chamados para tentar salvar as vítimas do atentado contra a estação ferroviária. Tudo recai sobre a população local, sobre a cidade, sobre o bairro. Definitivamente, ao impor a rápida modernização de lugares muito distantes , o grande mundo do livre mercado, da livre circulação financeira, criou uma enorme quantidade de gente “supérflua”, que perdeu todos os meios de sustento e não pode continuar a viver como seus antepassados.

São indivíduos obrigados a deslocar-se, a deixar os lugares onde são considerados refugiados para se transformar em imigrantes econômicos, imigrantes que, em seguida, vão para outra cidade. Mais uma vez são os recursos locais que têm de resolver como acomodá-Ios. Eles vêm para a cidade e transformam-se em símbolos dessas misteriosas – e por isso mesmo inquietantes – forças da globalização. Vêm sabe-se lá de onde e são – como diz Bertold Brecht – “ein Bote des Unglücks”, mensageiros de desventuras. Trazem consigo o horror de guerras distantes, de fome, de escassez, e representam nosso pior pesadelo: o pesadelo de que nós mesmos, em virtude das pressões desse novo e misterioso equilíbrio econômico, possamos perder nossos meios de sobrevivência e nossa posição social. Eles representam a fragilidade e a precariedade da condição humana, e ninguém quer se lembrar dessas coisas horríveis todos os dias, coisas que preferiríamos esquecer.

Assim, por inúmeros motivos, os imigrantes tornaram-se os principais portadores das diferenças que nos provocam medo e contra as quais demarcamos fronteiras.Mas eles não são os únicos. Saibam – senhoras e senhores – que, desde o início, a modernidade produziu “gente supérflua” – no sentido de que é inútil, de que suas capacidades produtivas não podem ser exploradas de maneira profícua. Para falar de forma mais brutal, sem meios termos, para as “pessoas de bem”, seria melhor que essas outras pessoas desaparecessem de vez. É uma gente sem perspectivas, que nenhum esforço de imaginação poderia introduzir numa sociedade organizada. A indústria moderna (aquela que construía uma ordem e que representava o chamado “progresso econômico”) produziu gente supérflua.

A construção de uma ordem leva sempre à liquidação dos supérfluos, pois – se querem que as coisas estejam em ordem, se querem substituir a situação atual por uma ordem nova, melhor e mais racional – vocês acabarão por descobrir que certas pessoas não podem fazer parte dela, e, portanto, é preciso excluí-Ias, cortá-las fora.

Sim, o progresso econômico. Mas o que é, em substância, o progresso econômico?

Seu mito se reduz a isso: poder fazer qualquer coisa com menos esforço, menor fadiga e gastando menos. Conseguir isso equivale a tornar supérfluos e economicamente inviáveis certos modos de fazer as coisas. Com isso, as pessoas que garantiam a própria sobrevivência dessa forma se tornam, por sua vez, supérfluas.

Essa não é uma história nova. Sempre, e em todo lugar, desde o início da modernidade, existe gente supérflua ao nosso redor. Mas agora há uma diferença. Saibam, pois, que a modernização, esse novo estilo de vida que produz gente supérflua, as antes estava limitada a algumas zonas da Europa, era um privilégio. Nessa época, o resto do mundo podia servir de depósito para a superfluidade produzida de início na Europa e depois em suas ramificações. A população supérflua da Europa que se modernizava, no curso do século XIX, era descarregada em terras desertas: América do Norte, sul da África, Austrália, Nova Zelândia, que dispunham de territórios inabitados, pois as pessoas que ali viviam não contavam, eram fracas, selvagens, eram gente a ser colocada na lista dos obstáculos.

Pois bem, a modernidade venceu, e celebramos o triunfo mundial do moderno estilo de vida: livre mercado, economia e consumo livres – e McDonald’s para todos. Mas isso significa que hoje não se produz gente supérflua apenas na Europa, para depois descarregá-Ia no resto do mundo. Ela é produzida em toda parte, pois o modelo produtivo moderno se afirma em todos os países. Essas pessoas vêm para cá como fizeram antes nossos progenitores, nossos avós e bisavós, que arrumaram suas malas e emigraram de cidades superpovoadas da Alemanha, Suécia, Polônia ou Rússia para os Estados Unidos, o Canadá, a América do Sul e assim por diante. Agora elas fazem a mesma coisa na direção oposta, e desembarcam em Milão, Copenhague e muitas outras cidades, buscando as mesmas coisas que nossos progenitores buscavam, ou seja, pão e água, pois também querem viver. E são essas cidades – como Milão, Copenhague, Estocolmo, Paris -, já bastante populosas, que devem encontrar um modo de alojá-Ios etc.

É esse o tipo de estrangeiro que mais assusta as cidades contemporâneas, pelos motivos que tentei expor. Mas eles não são os únicos, uma vez que nós também temos nossos “supérfluos”, gente que não podemos mandar para outros lugares, pois não há como fazê-Io: o planeta está cheio, não há mais espaços vazios, e portanto nossos supérfluos ainda estão entre nós. Houve um tempo em que os indivíduos eram considerados apenas provisoriamente supérfluos, uma época na qual se dizia que eram desempregados.

“Desempregado” é uma palavra enganosa, pois sugere mais do que realmente diz. Estar desempregado significa que a regra, para os seres humanos, é estar empregado; portanto, estar desempregado é um incidente, uma coisa bizarra, anômala, que é preciso enfrentar. Mas agora, cada vez com maior freqüência, podemos ouvir algumas pessoas dizerem que outras são supérfluas – não desempregadas, mas supérfluas.

Como todos sabem, o conceito de superfluidade não implica qualquer promessa de melhora, de remédio, de indenização. Não, nada disso. Uma vez supérfluo sempre supérfluo. Há uma palavra cruel, desumana, que foi inventada nos Estados Unidos, mas difundiu-se pela Europa como um violento incêndio: underclass, ou subclasse. Ser underclass significa estar definitivamente fora do sistema de classes; portanto, não é alguém de uma classe inferior, alguém que está lá embaixo, para quem – observem – ainda existe uma escada, e podemos acreditar que conseguirá subi-Ia, se receber ajuda. Ser underclass significa estar fora, excluído, não servir para nada. A única função positiva que a underclass pode desempenhar é induzir as pessoas decentes, as pessoas comuns, a se agarrarem ao tipo de vida que vivem, pois a alternativa é horrível demais para que sequer se possa levá-Ia em consideração. A alternativa é cair na underclass.

Nos períodos de depressão econômica, todos ouvem os políticos dizerem que esperam uma retomada do consumo, o que significa que você, cidadão normal, com uma conta no banco e alguns cartões de crédito, deve entrar nas lojas e comprar mercadorias a crédito, pois a partir daí será possível recomeçar, todos ricos e felizes. Mas quem é da underclass não tem conta em banco, cartões de crédito e não compra mercadorias que possam gerar lucro: ao contrário, ele precisa de mercadorias que exigem subsídios, e não lucros, e portanto não estará entre os consumidores que encontrarão um modo de sair da crise nem participará da retomada econômica. Por isso, para a sociedade, seria muito melhor se o underclass desaparecesse de uma vez por todas.

Existe portanto nas cidades essa dupla pressão e a tendência a construir muros. Já falei de fronteiras, de demarcar fronteiras, de criar áreas seguras dentro da cidade, áreas distantes daquelas em que “não se deve ir”, para as quais Steven Flusty – o jovem e promissor sociólogo americano da vida urbana – cunhou um termo muito feliz: “espaços vedados”. Vedados porque desencorajam as pessoas a ficar por perto ou impedem sua entrada. Segundo ele, são a expressão mais rendosa da arquitetura urbana nos Estados Unidos de hoje, seu produto mais importante. As tecnologias que servem para impedir o acesso e manter as pessoas a distância representam nesse momento o setor mais vanguardista dessa arquitetura. Não riam, senhoras e senhores.

Sabemos muito bem que nos Estados Unidos tudo pode acontecer, mas a mesma coisa ocorre também na velha Europa, provavelmente bem aqui em nossas cidades. Esses condomínios, as gated communities, em que não se pode entrar sem ter sido previamente convidado, que têm guardas armados 24 horas do dia, circuito interno de televisão etc., não passam de um reflexo dos guetos involuntários nos quais os underclass, os refugiados e os recentes imigrantes foram atirados. Os nossos guetos voluntários – sim, voluntários – são resultado da vontade de defender a própria segurança procurando somente a companhia dos semelhantes e afastando os estrangeiros.

Richard Sennett, sociólogo anglo-americano de grande visão, oferece as conclusões a que chegou em sua cuidadosa pesquisa sobre a experiência norteamericana: o fenômeno que consiste em buscar cada vez mais a companhia dos semelhantes deriva da relutância em olhar profunda e confiantemente para o outro e empenhar-se reciprocamente de modo íntimo e profundo, de modo humano. E descobriu que, quanto mais as pessoas se isolam nessas comunidades muradas feitas de homens e mulheres semelhantes a eles mesmos, menos são capazes de lidar com os estrangeiros; e quanto menos são capazes de tratar com os estrangeiros, mais têm medo deles. Por isso, procuram cada vez mais avidamente a companhia de seus semelhantes. Em suma, giram em círculos – um círculo vicioso que não se consegue romper.

Quis sublinhar aqui que as cidades são depósitos nos quais se procura desesperadamente soluções locais pal.l problemas que foram produzidos pela globalização. Gostaria, porém, de acrescentar outras duas considerações. Certo, as cidades são depósitos, mas também são campos de batalha e laboratórios. Campos de batalha para quê? Para a luta entre mixofilia e mixofobia, termos não muito comuns, mas que são auto-explicativos. A mixofilia é um forte interesse, uma propensão, um desejo de misturar-se com as diferenças, com os que são diferentes de nós, pois é muito humano, natural e fácil de entender que se misturar com os estrangeiros abre a vida para aventuras de todo tipo, para as coisas interessantes e fascinantes que poderiam acontecer. Talvez assim se viva algo precioso, algo que não se conhecia antes daquele momento. E é possível fazer novos amigos, bons amigos, que estarão conosco pela vida inteira. Mas isso seria impensável numa pequena e imóvel aldeia na qual cada um sabe o que todos os outros estão cozinhando, ninguém surpreende ninguém, e em que não se espera que aconteça algo de interessante. Era isso que atraía na cidade, era por isso que as pessoas deslocavam-se emmassa para as cidades. Há um ditado alemão, já usado nas cidades medievais: “Stadluft macht frei”, o ar da cidade liberta. De fato, na cidade podem acontecer muitas coisas surpreendentes que não ocorrem em outros lugares.

Por outro lado, há a mixofobia. Você convive com estrangeiros e tem preconceitos em relação a eles, uma vez que o lixo global é descarregado nas ruas onde você vive; e você já ouviu falar muitas vezes dos perigos derivados da underclass; e ouviu dizer também que a maioria dos imigrantes é parasita de seu welfare e até terroristas em potencial, e que cedo ou tarde acabarão por matá-lo. Nesse caso, viver com estrangeiros é uma experiência que gera muita ansiedade. Por conseguinte, é melhor evitar essa experiência, e muitas pessoas resolveram transmitir esse” instinto de evitar” às gerações futuras, colocando seus filhos em escolas segregadas, em que podem viver imunes a esse mundo horrendo, ao impacto assustador de outras crianças provenientes de “famílias do tipo errado”.

Essas duas tendências coexistem na cidade. Pessoalmente, não creio que a coexistência seja, por si só, uma solução. Por isso, o que poderemos e devemos fazer é contribuir para mudar as proporções: fazer algo para incrementar a mixofilia e diminuir a mixofobia. Certamente não se espera eliminá-Ia de todo. Acho que a Accademia della Carità pretende fazer exatamente isso: aumentar as possibilidades de mixofilia nas cidades. As raízes já existem, estão na natureza humana. É preciso desenvolvê-Ias multiplicando a oferta de alternativas. Por fim, o que eu pretendia dizer é que essas cidades são laboratórios nosquais se descobrem, experimentam e aprendem certos requisitos indispensáveis para a solução dos problemas globais. Isso é o contrário do que eu afirmei antes, quando falei da supremacia do espaço global, que descarrega seus problemas sobre nós, sobre as pessoas do local. Agora estou falando de algo que vai no sentido oposto. Aqui, na cidade, podemos dar nossa contribuição aprendendo essa arte que será indispensável para construir uma coexistência segura, pacífica e amigável no mundo inteiro.

Falei dos emigrantes. Pois bem, graças a emigrantes provenientes de lugares remotos, o “confronto das civilizações” de que falava Samuel Huntington transformou-se provavelmente num encontro de vizinhos: gente de verdade, homens e mulheres – vestidos de um jeito um pouco estranho, é verdade – que podem falar italiano com um terrível sotaque, por exemplo, um sotaque bastante desagradável; gente que – sim, é verdade – pode descansar em horas diferentes das nossas e é diferente de nós sob muitos aspectos. Mas nem por isso deixam de ser seres humanos, vizinhos que, cedo ou tarde, encontraremos nos restaurantes, nas ruas, no comércio, nos escritórios, em toda parte. Reverberam sobre eles as belas palavras de Madeleine Bunting, uma jornalista britânica muito sábia. Definitivamente – diz ela – o espírito da cidade é formado pelo acúmulo de minúsculas interações cotidianas com o motorista do ônibus, os outros passageiros, o jornaleiro, o garçom do café; das poucas palavras, dos cumprimentos, dos pequenos gestos que aplainam as arestas ásperas da vida urbana.

Se os seres humanos aceitam e apreciam outros seres humanos e se empenham no diálogo, logo veremos que as diferenças culturais deixarão de ser um “casus belli”. É possível ser diferente e viver junto. Pode-se aprender a arte de viver com a diferença, respeitando-a, salvaguardando a diversidade de um e aceitando a diversidade do outro. É possível fazer isso cotidianamente, de modo imperceptível, na cidade. Notei que várias áreas – nas cidades inglesas dilaceradas pela guerrilha urbana – foram se transformando, pouco a pouco, em bairros normais, comuns. É quase impossível ver caminhando nas ruas pessoas que não sejam diversas na cor da pele, mas isso não as impede de conversar amigavelmente e passar algum tempo juntas.

Podemos, portanto, aprender essa arte na cidade e desenvolver certas capacidades que serão úteis não apenas no plano local, no espaço físico, mas também no plano global. E talvez, em conseqüência disso, estejamos mais preparados para enfrentar a enorme tarefa que temos diante de nós, gostemos ou não, e que há de marcar nossa vida inteira: a tarefa de tornar humana a comunidade dos homens.

Gostaria de terminar observando que os velhos tendem a recordar. Por isso – sendo eu um homem velho – também posso fazê-Io. Quando eu era studante, tive um professor de antropologia que dizia (recordo perfeitamente) que os antropólogos conseguiram identificar a aurora da sociedade humana graças à descoberta de um esqueleto fóssil, o esqueleto de uma criatura humanóide inválida, que tinha uma perna quebrada.

Quebrara-a quando era ainda menino, e, no entanto, ele só tinha morrido aos 30 anos. A conclusão do antropólogo era simples: aquela devia ser uma sociedade humana, pois algo assim não aconteceria num bando de animais, em que uma perna quebrada poria um ponto final à vida, pois a criatura não teria mais condições de se sustentar. A sociedade humana é diferente do bando de animais. Nela, alguém poderia ajudar um inválido a sobreviver. Ela é diversa porque tem condições de conviver com inválidos – tanto que poderíamos dizer, historicamente, que a sociedade humana nasceu com a compaixão e com o cuidado do outro, qualidades apenas humanas.

A preocupação contemporânea está toda aí: levar essa compaixão e essa solicitude para a esfera planetária.

Sei que gerações precedentes já enfrentaram essa tarefa, mas vocês terão de prosseguir nesse caminho, gostem ou não, a começar por sua casa, por sua cidade – e já. Não consigo pensar em nada mais importante que isso. É por aí que devemos começar.

Extraído de: BAUMAN, Zygmunt. 2009. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. 74-90.

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