Publicado por: cidadedopensar | 07/02/2013

Vigliatto


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Vigliatto Leonarddi é um daqueles cisudos senhores que veladamente ignoramos a existência,
principalmente quando no metrô buscam o assento preferencial para idosos.

Ele já passou dos 85, e ainda está á procura, não de assento em transporte público, mas dos porquês que sua existência ainda não ofereceu.Perdido em pensamentos aleatórios se viu diante de uma duvida pertubadora: “que diabos, afinal, é viver” ? é subexistir devido amarras sociais e temporais ou libertar-se anarquicamente de tudo e por impulsos continuar a expirar ?

Sentindo-se ameaçado por uma jovem grávida na árdua e colossal disputa pelo descanso das nádegas , panturillhas e musculos lombares, Vigliatto pensou em simular tonteira… mas achou que era um truque barato demais, e não valia passar por tal vexame, já que a ínfima distância entre Saens e Afonso Pena não durava uma pigarreada anciã.

Foi então que uma jovem, ruiva,linda, realmente estonteante , olhou profundamente dentro das retinas do velho Vigli. -“pode sentar aqui, meu tio, acho que está precisando descansar. ”
-” Não me entenda mal, doce pequena, mas o velhinho aqui só tem a casca cansada. Tudo o que é gasto me fortalece. Por isso fico em pé na condução. Anda tenho sola de sapato pra gastar nesse mundo. Um pouco,é fato mas tenho. ”

A menina incendiou. Ficou boquiaberta com o quê ouviu. Ela cruzou as grossas pernas adolescentes, guardando com cuidado a barra da saia como se fosse um ostensório. E o velho Vigli fazia tempo que não assistia a missa do padre Robério. Estava acometido pela fome de hóstia. A menina era puro pão e vinho. Erradicaria a fome de toda a humanidade só como a ternura de seus jovens pés.

Entorpecido pelo feromônio, seu antigo vicio, Vigli mal se deu conta da idade da menina. 17. Só 17 anos. Forte como um touro. Sagaz como um gato. Perigoso como uma mosca. Vigli a anos não sentia seu velho amigo cacete dar o ar da graça. Aconteceu no momento da cruzada de pernas. A menina levantou. Chegaram na estação final da linha 1 do metrô carioca. Raica, o nome era Raica. Ruiva Raica.

Ela percebeu que o jovem ancião a seguia pela rua. A Conde de Bonfim se mostrava um belo pano de fundo para uma perseguição não motorizada, onde a perseguida queria ser seguida.

Vigli gritava. Um tanto neurastênico. Completamente nauseabundo. Quase babando : meninaaaa. Explica-me os porquês. Da minha existência. Por favor. Me faz lembrar de quem eu era quando jovem. Resume minhas duvidas. Por favor. Viva as minhas duvidas e divida suas angustias comigo. Preciso de sangue novo. Como o Conde. E por favor,pare de andar. Já estamos quase no fim da Bonfim. Não agüento chegar na Hadock Lobo.

Em breve mais um capitulo da saga do nosso jovem ancião.


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